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Entrevista com Monsenhor João, ano de 1984

Abaixo está reproduzida uma entrevista concedida em 1984 a um paroquiano à época em que Monsenhor João completava 50 anos de Sacerdócio, onde poderemos observar melhor a perfil da personalidade do Monsenhor..

Usaremos a notação P para a Pergunta e M para a Resposta do Monsenhor.

P - O que acha o senhor do ambiente familiar que o viu nascer e crescer?

M - O ambiente em que nasci era favorável à vocação. Lá se rezava o terço e as orações da manhã e da noite todos os dias. A blasfêmia era mais do que odiada. Nem se permitiam expressões que de longe se parecessem com blasfêmias. A fé era vivida intensamente.

P - Como surgiu, em sua vida, a idéia de ser Padre?

M - Nem a Mãe e nem os irmãos me forçaram a escolher a carreira eclesiástica. A estima, porém, que eles tinham no sacerdócio e da vida religiosa despertaram em mim o desejo de me tornar sacerdote. A isto mais me animaram as palavras que o pai teria dito, quando nasci: "Esperamos que este menino um dia seja padre". Tenho por certo que não só a mãe, os irmãos e os familiares pediram a Deus para mim a vocação, mas também lá do céu o saudoso pai não deixou de interceder por mim.

P - Parece que, por causa de sua saúde, quase desistiu da idéia de ser Padre. Fale-nos disto.

M - Desde o primeiro ano do seminário estava firmemente resolvido a chegar ao sacerdócio. O único receio que tinha era a falta de saúde porque, desde criança, era fraco e anêmico. Meu grande esforço no estudo acabou por esgotar-me a tal ponto que duas vezes interrompi meus estudos, em 1927 e em 1929. Duas pessoas amigas achavam que eu devia desistir da idéia de ser Padre, porque já tinha feito muito para mostrar minha firmeza na vocação. Foi uma angústia para mim. Tinha que tomar uma decisão. Se o ideal do sacerdócio sempre me empolgava, muito me custava renunciar a ele. As orações de minha mãe e de muitas pessoas amigas alcançaram-me a grande graça de poder reatar os estudos e chegar ao sacerdócio. Em 1930, o Cônego Josué Bardin, o então pároco de São Domingos do Sul, e grande amigo de minha família, convidou-me a passar uma temporada com ele e tratar da saúde.

Aceitei o convite e aqui passei três meses descansando e estudando um pouco. Em agosto, tentei voltar ao Seminário para ver se conseguiria submeter-me aos exames, ganhar aquele ano, pois já tinha perdido dois por falta de saúde.

O Reitor do Seminário de São Leopoldo disse-me que não dependia dele aceitar-me porque o ano letivo já ia para o fim. Resolvi recorrer ao Arcebisto de Porto Alegre, Dom João Becker. Dirigi-me logo a Porto Alegre e recorri ao meu primo Monsenhor José de Nadal, expondo a minha situação e a minha disposição de reatar os estudos de seminarista. Ele me recebeu com muito carinho e, sem perda de tempo, levou-me à presença de Monsenhor Leopoldo Neis, vigário geral de Dom João Becker, o qual logo se interessou pela minha causa. O Senhor Arcebispo estranhou que eu não tivesse sido aceito no Seminário e desconfiava que o Padre Reitor tivesse alguma informação em meu desabono e escreveu ao Padre Reitor para perguntar qual o motivo de não ter me aceitado. A resposta foi que eu não tinha saúde e que achava que não teria condições de prosseguir os estudos. Diante desta dificuldade, o Senhor Arcebispo aconselhou-me que consultasse um bom médico e me fornecesse um atestado de saúde. Consultei um médico que era uma sumidade médica de Porto Alegre, o qual , depois de acurado exame, atestou que poderia continuar os estudos. Foi para mim uma grande alegria. No dia seguinte, Monsenhor José de Nadal acompanhou-me até o Seminário de São leopoldo, onde fui bem recebido pelo próprio Reitor, que tinha manifestado receio em me receber. Os professores usaram de bastante clemência para comigo. Dispensaram algumas matérias que não eram necessárias. Prestei exames em novembro e fui aprovado. Agora minha esperança de chegar ao sacerdócio estava fortalecida mais do que nunca. Em 1931 comecei a Teologia e fui bem sucedido até o fim, com a saúde e com os estudos. No dia 16 de setembro de 1934, aos 28 anos, era ordenado sacerdote.

P - A ordenação sacerdotal foi um fato marcante na sua vida ?

M - O dia mais belo da minha vida foi o dia da minha ordenação sacerdotal. Éramos seis da Arquidiocese de Porto Alegre, dos qual três já estão na casa do Pai. A ordenação foi na Cripta da Catedral de Porto Alegre. Quem me ordenou foi Dom João Becker. O mestre de cerimônia foi o Padre Reus, que foi meu professor de liturgia.

P - Durante sua vida sacerdotal, houve momentos de dúvida quanto à missão abraçada ?

M - Durante minha vida sacerdotal senti-me sempre sumamente feliz. Saboreei a alegria e a honra de ser sacerdote do Altíssimo. Não compreendo como um Padre possa deixar o sacerdócio. Disse mais de uma vez, eu não dou um minuto do meu sacerdócio por tudo o que o mundo oferecer de honras, prazeres e riquezas. Se tivesse que nascer cem vezes, cem vezes escolheria o sacerdócio, mesmo que me custasse mais sacrifícios dos que eu enfrentei na minha formação no seminário.Por isso, convido a todos que me ajudem a agradecer a Deus graça tão grande. Um eternidade não basta para agradecer

P - A que o Senhor atribui o fato de ter ficado 49 anos à testa desta paróquia ?

M - Sempre gostei de São Domingos do Sul. Nunca pedi para ser transferido. Duas vezes me foi oferecida outra paróquia. Agradeci a honra, mas não aceitei; embora minha atuação não tenha sido das melhores, não consta que alguém tivesse pedido o meu afastamento.

P - Como Padre, o senhor preocupou-se com a promoção do homem todo e de todo homem. É verdade isto?

M - Como Padre, muito me preocupei com o bem das almas. Desde minha entrada no Seminário, meu grande sonho sempre foi salvar o maior número de almas possível. Interessei-me, também, pela promoção de todo homem e do homem como um todo, que compreende o bem do corpo e da alma, o que mais é do que o cumprimento da ordem do Senhor: "Amai-vos uns aos outros, assim com eu vos amei". É obrigação de toda pessoa e, muito mais, do Padre, amar muito toda pessoa e até os próprios inimigos.

P - Talvez, em sua vida, houvesse decepções e mágoas. Quer citar algumas ? Como as encarou ?

M - As decepções fazem parte de nossa vida e não surpreendem. Foram menos do que eu esperava. Devemos citá-las até, com alegria porque tudo o que acontece, agrade ou desagrade, é só para o nosso bem. Diz São Paulo que, "para quem ama a Deus, tudo se torna bem". O que faz mal a nós, é só o pecado.

P - Qual o segredo de ter chegado a esta idade com tamanha disposição para o trabalho ?

M - Quase nunca tive saúde perfeita, desde criança. Isso me obrigava, com frequência, a submeter-me a tratamentos médicos e a dietas de alimentação. Estou convencido de que, quem vive mais tempo, não é o que tem saúde, mas o que cuida da saúde. Sempre fui muito obediente aos médicos e isto me fez um grande bem e possibilitou-me chegar bem disposto a essa idade.

P - Para finalizar, o que nos teria a dizer após 50 anos de Sacerdócio ?

M - Sinto-me imensamente feliz. Louvo a Deus e convido não só a paróquia, mas a todos os fiéis que me ajudem a agradecer a Deus. Creio ter feito algum bem. Desejei fazer muito por Nosso Senhor. Tive muitas alegrias e recebi muitas honras, não só na paróquia, mas também em outros lugares. Devo imensa obrigação aos paroquianos e aos não paroquianos pela imensa estima e amizade com que me honram. Suas orações muito me ajudaram para que eu pudesse fazer um bem maior. Se peço a Deus longa vida é só para lhe conquistar muitas almas e dar à Igreja muitos e santos sacerdotes, religiosos e religiosas.